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  • Dr. José Vicente Garcia

O que pensa e sente uma pessoa em depressão


A depressão é uma doença que não escolhe raça, classe social, gênero e idade

Quando nos deparamos com a depressão é possível notar um ponto em comum entre os pacientes. Quase que a totalidade sente que está perdendo para a doença. Essa sensação de fracasso é consequência da doença, mas pior é a visão dos demais que associam a depressão a falhas de caráter, de conduta e de comportamento. Acho que todos ouviram, ao menos uma vez na vida, que esse negócio de depressão é “frescura”, não ouviram?


Essa concepção de depressão enquanto derrota é fruto de uma construção histórica que, mesmo sem perceber, é incutida no imaginário popular, pois doenças do coração ou dos pulmões aparecem em exames e a depressão ainda não, porém a medicina avançou muito nos últimos anos e tem combatido esse estigma e essa doença de maneira muito eficaz.


Hoje, não se tem dúvida de que a depressão é sim uma patologia a se tratar, mas como durante muito tempo ela não foi encarada como ”loucura”, uma “doença sem cura”, muitos ainda reproduzem esse pensamento raso e absurdo de que é “coisa de louco” ou “falta de um tanque para lavar roupa”, acreditando que não há necessidade de cuidados médicos, ou mesmo criticando severamente quando quem está em quadro depressivo abre a necessidade buscar ajuda.


Por isso, neste texto vamos falar abertamente sobre diferentes aspectos que rondam a doença e pensamentos que passam pela mente de quem está sofrendo e também na mente de quem está ao lado dos enfermos durante um quadro depressivo e que prolongam ou perpetuam o quadro. Continue a leitura!


A necessidade de mostrar que está doente


O transtorno em nossas mentes é invisível, diferentemente das enfermidades físicas. Quando alguém quebra uma perna ou um braço, existe uma imobilização e facilmente as pessoas identificam que aquela pessoa tem algum problema de saúde.


Na depressão isso não acontece, pois muitos têm o pensamento de “amanhã vou estar melhor”, fazendo com que essas pessoas dissimulem a tristeza na sua falsa aparência de felicidade.


Esse desejo de justificar a depressão com machucados psicológicos, sempre associados a palavras ou ações de terceiros é reflexo do mundo de aparências que vivemos e da obrigação de prestar contas para a sociedade.


Dessa forma, a pessoa que está em situação depressiva consegue se reconhecer como não culpada de estar doente pois “há um grande causador”, se esquecendo que a genética tem grande influência nos episódios depressivos e que cuidados médicos, com medicação e atenção aos fatores psicológicos, são tão necessários como em qualquer outra doença.


O desejo de isolamento


É comum em pessoas que estão enfrentando a doença a vitimização da sua situação pelos demais. Por isso, os pensamentos são de isolamento. Porém, ao mesmo tempo em que quer ficar só, o enfermo sente a falta do apoio e companhia dos seus.


Esse é um exemplo de sintomas que demonstram o sofrimento como algo palpável, que pode ser facilmente verificado por pessoas próximas, independentemente da confirmação de qualquer raio-x ou exames de sangue.

Se isolar é um comportamento comum no quadro depressivo

O pensamento do depressivo é paradoxal, ou seja, um pouco desorganizado, o que o torna confuso para quem tenta interpretar e que torna o tomar decisões um ato de extrema dificuldade por dúvidas intermináveis para o depressivo, além fazê-lo lidar com pensamentos negativos associados a quaisquer decisões, atos ou notícias. Esse comportamento é de difícil convivência e afeta os que estão a sua volta.


A comparação com o outro


Existem todos os tipos de pessoas que estão enfrentando a depressão. De diferentes faixas etárias, classes sociais, gênero, etc. Cada quadro tem sua especificidade. Cada um teve uma série de acontecimentos só seus que o levou a essa situação. E nenhum é melhor ou pior do que o outro.


Muitos relatam que não se sentem no direito de estar em um quadro depressivo. A grande maioria busca nas analogias motivos para recriminarem a própria doença. É comum ouvir “eu tenho um bom salário, uma casa, um carro e tanta gente que não tem nada disso não tem esse problema, como eu posso ter depressão? ”.


Aos mesmo tempo, outros se proíbem de estarem doentes, pois tem a missão de serem chefes de família. O pensamento: “a minha família precisa de mim” faz com que ele soterre seus sentimentos e como não lida com os seus problemas, a doença toma conta.


A depressão não escolhe uma classe social para se instalar. Ela está presente em todas as camadas da sociedade. São de fundamental importância o acompanhamento médico e o entendimento de que sofrer desse mal não é uma falha de caráter e muito menos uma fraqueza ou um fracasso pessoal. Essas comparações, que são totalmente infundadas, só contribuem para que o sentimento de derrota cresça.


Não há alívio no consolo


Grande parte dos familiares e amigos íntimos têm a ideia de que com palavras de incentivo e motivação o enfermo tem a obrigação de responder positivamente. O que acontece é que quem está passando por essa situação não consegue acreditar em nenhuma dessas palavras naquele momento e por vezes acaba por irritar e afastar estes que o amam.


No auge da crise, não há realização pessoal, conquistas ao longo da vida nem admiração de pessoas que consiga convencer o depressivo do seu valor. Quando o sentimento de inutilidade toma conta, para o doente não há nada que ele faça ou que tenha feito que seja bom. Não importa quanto você apresente de dados e resultados que atestem o contrário.


O que não diminui em nada o poder que esse consolo tem, pois, apesar de negar, essa atenção lhe serve de carinho e sem este apoio o abismo é mais escuro.

Por mais que a pessoa não consiga acreditar naquele momento e, mais do que isso, concentre todos os seus esforços em refutar qualquer aspecto positivo que seja colocado, em presença da medicação adequada e de tratamento, ela reagirá progressiva e positivamente a esses estímulos.


Cabe aos entes queridos a compreensão quando não forem bem recebidos, o respeito pela dor do paciente, mesmo que não entenda o porquê daquilo estar acontecendo, e a perseverança em ajudar aquela pessoa a enfrentar o seu sofrimento, fazendo com que entenda e aceite procurar ajuda, mesmo que necessite insistência e vigor na argumentação a fim de superar a doença.


É mais comum do que se imagina


Sabe quando você compra um carro novo e a partir disso começa a perceber que existem muitos e muitos modelos iguais a ele e como antes de comprá-lo você nunca notou quantidade de carros como o seu que rodam pela cidade? Com a depressão acontece algo bem parecido.


Quando a sua depressão chega ao conhecimento do seu círculo de convivência é impressionante o número de pessoas que chegam e se abrem com você. Quantas delas estão ou tem parentes muito próximos na mesma situação e que, antes de você ter a doença, não se sentiam à vontade para conversar sobre isso com você.


Segundo uma pesquisa da USP, cerca de 10% dos adultos brasileiros estão passando ou passaram por um quadro depressivo e 35% relataram humor depressivo presente por mais de sete dias.


O ritmo de vida acelerado, as constantes cobranças pessoais e externas e tantos outros motivos que levam à depressão acometem cada vez mais pessoas no mundo todo. De forma muitas vezes não imaginada, crianças também podem ser acometidas de depressão.


Parece que não vai passar


Para quem está vivendo o quadro depressivo, acompanhamento médico é poder ter a crença de que aquilo é como todas as outras doenças, que tem tratamento adequado e que com a depressão será superada.


Porém, quem está em depressão não vê de imediato essa perspectiva. Por mais que consiga explicar racionalmente o que está acontecendo, emocionalmente acredita no contrário e se convence de que aquilo é sua nova realidade.


Dar o suporte para que ele passe pela fase aguda da doença é entender que ele terá seus altos e baixos, será contraditório e psicologicamente regredirá a fases anteriores de vida já anteriormente superadas.


Nestes casos a doença terá um impacto ainda maior no seu dia a dia, afetando a rotina de cada um de forma diferente.

Alguns conseguem dar sequência em seus afazeres diários, vivem a vida normalmente sem externar o quanto estão sendo consumidos pela depressão, mas sofrendo muito em silêncio, outros já não conseguem se manter produtivos, alguns não conseguem sair da cama e em casos mais graves, oferecem risco a sua própria segurança e é preciso considerar a internação.


Enfim, não importa como a doença se manifesta, é preciso entender a necessidade de buscar imediatamente tratamento e mantê-lo até a hora em que a depressão for completamente superada, e isso só pode ser feito com segurança pelo acompanhamento de um psiquiatra.


A coragem não é a ausência do medo, é a persistência apesar do medo. E essa persistência com certeza será recompensada.

Todos esses pensamentos colocados neste texto passam ou passarão pela grande maioria das pessoas em depressão. Agora que você já conhece alguns deles, procure estar à disposição para ajudar no que for preciso, seja ouvindo, seja fazendo, seja simplesmente demonstrando que está ali.


Tem algum caso que queira compartilhar conosco sobre o assunto? Tem alguma dúvida sobre depressão? Deixe seu comentário aqui no post. É importante ampliar cada vez mais as conversas sobre o tema e aumentar o entendimento em torno da doença!

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